Pedro,
Sou, muitas vezes, um homem cético (daqui uns seis ou sete anos, te explico exatamente o que isso quer dizer). E sou quase sempre crítico.
Sempre olhei com desconfiança o amor incondicional de pai para filho. Imagina, então, o que penso sobre o filho dos outros.
Na verdade, nunca acreditei muito nessa coisa de que se pode amar um filho independente do que ele faça. Pelo menos até hoje.
Explico. Ah, sim, acostume-se, eu sempre explico...
Sempre que te imaginava maiorzinho, lá pelos cinco ou seis anos, te via usando bermudas de sarja azul-marinho, uma camiseta vermelha e um blusão de malha com tranças branco debruado em azul e verde. Nas mãos terias uma versão encadernada em couro de Charles Dickens ou Lewis Carroll. Quem sabe, se tudo desse certo, teu moleskine de desenhos.
Até que te u pai me assombrou com a possibilidade da tua imagem vestindo uma camiseta de poliéster tricolor, tênis sujos, meias encardidas e a franja colada a testa pelo suor.
Essa imagem foi negada até hoje, quando vi uma reportagem sobre a chegada do novo técnico do nosso time. Sob chuva e frio, crianças gritavam alucinadas, com olhos cheios de uma esperança que, confesso, ainda que não me falte, não me importa.
Enfim, num pensamento absolutamente involuntário, e definitivamente incontrolável, me vi lá naquele aeroporto gelado encostado numa parede esperando que tu renoves tua convicção na importância do futebol. Sim, tu estavas todo suado e usava poliéster. E não, eu não te amava nenhum pouco menos.
PS. Só para manter as opções abertas, encontrarás no teu armário a bermuda, o pulôver e pólos de cores variadas. Na prateleira estarão aqueles e outros livros. E o caderno de desenho estará na mesa, lá no fundo, perto do material de pintura do teu pai.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
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